7 Motivos para Não Fazer um “Curso Completo” de Programação

Você está procurando um curso para ser programador e se deparou com a oferta de um “Curso Completo”?

Tenho certeza que sim.

Tem muita gente oferecendo esse tipo de curso, como se isso fosse um diferencial competitivo!

Afinal, é tentadora a ideia de aprender a programar do zero até saber tudo o que existe sobre uma linguagem, não é?

Responda: O que chama mais a atenção no currículo, “Curso básico de programação” ou “Curso completo de Python”?

Muitas pessoas vão te dizer que é a segunda opção.

Imagine só…

Quando você concluir o curso, vai ter um currículo competitivo!

Será?

E tudo isso mesmo que você ainda não saiba nada de Python. Ou, como se diz em inglês, “From Zero to Hero! (Da Estaca Zero a Herói, em uma tradução livre).

Parece bom, não é?

Você pode até achar que sim. Que vai dominar uma linguagem com muitas vagas de emprego e bons salários.

No entanto, essa oferta tentadora não é tão boa quanto parece…

Na verdade, você deve evitar os cursos completos a todo custo.

Por quê?

Bem, não vou te dar só uma, mas sim 7 razões que vão fazer você concordar que é uma má ideia fazer um curso completo.

E no final, eu explico como você deve escolher um curso para aprender a programar do zero.

Portanto, leia com atenção esses pontos e tome sua decisão.

Aqui estão os 7 motivos:

Você Vai Demorar Muito para Obter um Resultado Concreto

Fala a verdade, você riu quando viu esse primeiro motivo e lembrou da imagem no início do post, não foi?

Brincadeiras à parte, quando você quer aprender alguma coisa, é importante ter um resultado rápido.

Caso contrário, pode ser que você desista antes mesmo de concluir o curso.

O curso completo vai abordar uma quantidade grande de tópicos, muitos deles bem básicos e totalmente teóricos.

Vamos pegar como exemplo um Curso Completo de Java.

Esse curso provavelmente começaria falando sobre o surgimento da linguagem Java, há mais de 20 anos, suas aplicações, sua característica de rodar em qualquer dispositivo e então daria orientações sobre como fazer o download do JDK (Java Development Kit).

!

Em termos técnicos, essa afirmação está incompleta. O código Java compilado (bytecode) roda em qualquer dispositivo onde haja uma máquina virtual Java (JVM).

Em seguida, o curso abordaria orientação a objetos, que é um conhecimento fundamental para se programar em Java.

Nesse momento você aprenderia conceitos como herança, polimorfismo, encapsulamento, entre outros, que não são triviais se você nunca teve contato com uma linguagem OO.

Acompanhou? Até agora, depois de horas de aulas, ainda não rolou nem o “Hello World”.

Depois disso você entraria no estudo da estrutura e sintaxe da linguagem Java. Estudaria os laços, condições, classes, inner classes e interfaces.

A partir daí você conseguiria construir alguns programas básicos em Java, mas isso ainda não seria suficiente para que você conseguisse desenvolver sistemas de verdade.

Faltaria estudar os padrões de projeto, as bibliotecas e os frameworks disponíveis.

Isso sem falar na plataforma JEE (Java Enterprise Edition), com os componentes para desenvolvimento Web e acesso a bancos de dados, entre outros.

E você só chegaria tranquilo nesse ponto se você já tivesse uma boa noção de algoritmos e estruturas de dados.

Percebeu?

A oferta do curso completo explora justamente o fato de que você não sabe nada sobre uma linguagem, portanto não sabe o quanto há para aprender sobre ela.

Dessa forma irá demorar muito e custar caro até que você consiga produzir algo concreto, que te dê segurança para conseguir um emprego usando aquela tecnologia.

“Quando você quer aprender alguma coisa, é importante ter um resultado rápido.”

Você Não Precisa de um Curso Completo

É isso mesmo que você leu. Você não precisa de um curso completo.

E eu consigo te convencer disso com uma pergunta só:

Se você quer comprar uma moto, você vai atualizar sua Carteira de Habilitação para poder dirigir ônibus e caminhões também?

Com certeza não…

A mesma coisa acontece com as linguagens de programação.

Eu escrevi um post bem detalhado sobre as vantagens de começar pela linguagem Python. Dá uma olhada lá e depois volta aqui, para entender melhor por que você não deve se afobar para aprender muita coisa ao mesmo tempo no início.

Então imagine que você se interesse pela carreira de Data Science e comece seus estudos pela linguagem Python.

O seu objetivo é programar em Python para manipular grandes conjuntos de dados, usando as bibliotecas disponíveis para Big Data, por exemplo.

No curso completo você vai perder tempo estudando os frameworks Django e Flask para desenvolvimento Web, que não fazem parte do seu objetivo.

Isso sem falar nos outros usos possíveis da linguagem Python.

Esses desvios no seu aprendizado são desestimulantes. Isso pode fazer com que você deixe os estudos de lado por um tempo e nunca mais encontre tempo ou motivação para retomar o curso.

Ah, mas você pode pular o conteúdo que não te interessa e cursar só o que você quer, certo?

Errado.

Se você fizer isso, vai terminar o curso, mas não vai receber o certificado de conclusão, principalmente se houver alguma prova para cada conteúdo e você não passar.

De acordo com especialistas da área de recrutamento, você não deve colocar um curso sem certificado no currículo.

O que eu quero mostrar com esse exemplo é que você sempre vai ter um foco específico quando quiser aprender uma linguagem de programação.

Então, estudar tudo sobre ela seria uma perda de tempo.

A Tecnologia Muda Muito Rápido

Esse é outro motivo que tem a ver com o tempo que você vai gastar com um curso completo.

Esses cursos completos tendem a ser longos. E eu não estou falando só do tempo que você leva para cursar todas as matérias.

Como assim?

Bem, o tempo todo surge alguma novidade no mercado. Alguma característica nova em uma linguagem de programação, um framework, ou até mesmo uma linguagem nova.

Nessa hora, as pessoas que produzem o curso precisam estudar, criar os materiais didáticos e lançar o curso.

Isso também leva bastante tempo. Até porque, se levar pouco tempo, você pode desconfiar da qualidade do curso…

Uma vez formadas as turmas, os alunos precisam de mais tempo ainda para consumir o conteúdo do curso.

Nesse intervalo, a tecnologia muda. Surgem novas versões de componentes, alguns deixam de existir e são substituídos por bibliotecas totalmente diferentes.

Até a sintaxe de uma linguagem de programação muda ao longo do tempo. Veja, por exemplo, as mudanças no Python da versão 2 para a versão 3.

Ou seja, o custo para manter um curso atualizado é alto, para os instrutores e para os alunos.

Agora imagine se você tivesse que reiniciar os estudos sobre um assunto toda vez que alguma coisa mudasse…

Por esse motivo, você corre o risco de fazer um curso completo e… desatualizado!

“O custo para manter um curso atualizado é alto, para os instrutores e para os alunos.”

Você Precisa de Tempo para Fixar o que Aprendeu

Esse motivo é baseado na minha própria experiência de aprendizagem.

Quando estou aprendendo alguma coisa, eu preciso de tempo para fixar o conhecimento.

Eu acredito que a cabeça de muita gente também funciona assim.

Em um curso completo você parte do zero e logo evolui para tópicos mais avançados, já que há muitos assuntos para cobrir.

Por isso, você corre o risco de não aplicar o que aprendeu no curso antes de avançar para o próximo tópico.

Assim, você não fixa o conhecimento.

Veja o Método Feynman de estudo, por exemplo. Segundo ele, para aprender de verdade, você deve ensinar o que está estudando, usando a linguagem mais simples possível para isso.

Dessa forma você compreende o conteúdo e não apenas repete o que estudou.

No entanto, isso exige tempo para entender e sintetizar o conteúdo. Tempo que você não tem, se o ritmo do curso completo for muito intenso.

Por outro lado, se o curso for lento o bastante para que você aplique cada assunto aprendido, ele provavelmente será muito extenso (e chato).

E aí voltamos ao primeiro motivo…

Quem quer ficar um tempão estudando a mesma coisa sem ver um resultado concreto e sem conseguir um emprego?

“Você corre o risco de não aplicar o que aprendeu no curso antes de avançar para o próximo tópico. Assim, você não fixa o conhecimento.”

Você Pode Não Gostar da Experiência de Ensino

Na verdade, esse é um motivo para ter cautela quando for investir em qualquer coisa que gere um compromisso muito longo.

Vou te dar outro exemplo do dia-a-dia…

Imagine que você encontrou a casa dos seus sonhos para alugar. Você corre atrás de toda a documentação, fiador, cartório e assina um contrato de 30 meses.

Na primeira hora depois da mudança você descobre que o quartel do Corpo de Bombeiros fica atrás da casa, coisa que você não tinha percebido antes porque estava empolgado demais com a piscina e com a churrasqueira.

E agora?

Bem, agora você tem que lidar com as sirenes a qualquer momento do dia ou da noite, durante quase 3 anos. Ou pagar a multa do contrato de aluguel e começar a procurar outro lugar para morar.

Esse mesmo risco se aplica à experiência de ensino.

Pode ser que você se empolgue com a proposta do curso. Afinal de contas, é um curso completo.

Isso significa que você vai aprender muito sobre aquela linguagem, não é?

Mas… E se você não gostar do ritmo das aulas, da didática do professor, dos materiais ou de qualquer outra coisa na instituição ou na plataforma de ensino?

Não importa, você estará preso ao curso até o final, ou perderá seu dinheiro investido.

E mesmo que você consiga algumas aulas de graça antes de pagar, a experiência de assistir duas ou três aulas é bem diferente de assistir umas trezentas no curso completo.

Além disso, se o curso for online, por lei, você só tem 7 dias para receber seu dinheiro de volta caso desista.

E admita… O que sempre acontece é que nós estamos muito ocupados e deixamos para começar o curso semanas depois, quando não dá mais tempo de desistir.

Portanto, quanto mais completo for o curso, maior será o prejuízo se a experiência de ensino não te agradar.

“Quanto mais completo for o curso, maior será o prejuízo se a experiência de ensino não te agradar.”

Você Não Vai Ter Tempo para Aprender Sobre Outros Assuntos

Já pensou que você pode não querer se concentrar no mesmo assunto do início ao fim, sem interrupção?

Na verdade, estudar mais de um assunto é uma obrigação se você estiver começando sua carreira de programador e quiser montar um currículo competitivo, com um perfil generalista.

Voltando ao meu exemplo do curso completo de Java, imagine aprender tudo sobre a linguagem Java e só depois estudar teoria de bancos de dados e linguagem SQL, além de outros assuntos necessários para você progredir na carreira.

É como ler um livro com muitas páginas.

Quando você começa a ler, pode ser que não se empolgue tanto e resolva parar no meio para começar a ler outro livro, alternando a leitura entre os dois. Ou talvez três, quatro livros…

Essa é uma característica pessoal conhecida como Flexibilidade Cognitiva e considerada fundamental para o sucesso do aprendizado.

Além disso, mesmo que você já tenha experiência, é natural você querer aplicar o que está aprendendo.

Nessa hora, pode ser que seja necessário parar um pouco e estudar outro assunto, para completar esse exercício.

No entanto, se você fizer um curso completo, talvez fique sobrecarregado e não consiga se desligar do assunto principal para estudar outras coisas.

Você Corre o Risco de Ser Constrangido em uma Entrevista de Emprego

Suponha que você tenha enviado seu currículo para uma vaga de emprego e tenha sido selecionado para uma entrevista.

No seu currículo estava escrito que você fez um Curso Completo de [exatamente aquilo que era preciso para conseguir a vaga].

Agora imagine que o entrevistador te faz uma pergunta sobre a linguagem de programação que você teria aprendido por completo no curso.

No entanto, você não domina aquela parte da linguagem.

E não é culpa sua…

Pode ser que o curso tenha abordado o assunto superficialmente. Pode ser que você não tenha se interessado por aquilo durante o curso, porque esse não era o seu objetivo (como expliquei no motivo 2).

Não importa a causa. O fato é que você não sabe a resposta. E isso é normal.

Mas isso pode ser constrangedor…

O entrevistador, percebendo que você não está seguro, pode emendar algumas perguntas para aumentar ainda mais o seu desconforto:

– “Você não fez um curso completo?

– “Você não estudou tudo sobre esse assunto?

Essas são perguntas comportamentais que não têm uma resposta correta, mas que você terá que responder.

Quando eu conduzo entrevistas de emprego e vejo que o candidato tem um curso completo no currículo, ou se apresenta como “Especialista” em alguma coisa, sempre introduzo uma pergunta mais avançada sobre o assunto.

No entanto, esse tipo de pergunta não serve para avaliar a capacidade técnica do candidato ou se ele realmente domina o assunto. Há outras formas de medir isso.

O objetivo da pergunta é tirar o entrevistado da zona de conforto e avaliar sua reação em uma situação constrangedora ou sob pressão.

O que ele faz quando ele não tem todo o conhecimento necessário para concluir sua tarefa?

Ou ainda, qual é o seu comportamento quando é confrontado e não tem uma resposta óbvia para dar?

Portanto, preste atenção. Pode ser que você caia em uma armadilha dessas se disser que fez um curso completo.

Então, O Que Você Deve Fazer?

Como você percebeu, embora pareça uma boa opção, evite fazer um curso completo sobre algum assunto.

O melhor a fazer é dar pequenos passos ou, como se diz em inglês, “baby steps”.

Procure cursos mais curtos, com foco naquilo que você quer aplicar de imediato.

Por exemplo, aprenda algoritmos, depois estude Python, que é uma linguagem de programação mais fácil de aprender.

Comece por um curso que ensine os fundamentos e evolua para outros cursos sobre tópicos avançados.

Quando já estiver programando o básico em Python, aprenda um pouco sobre frameworks para desenvolvimento web e depois desvie seus estudos para bancos de dados por algum tempo.

Uma boa opção é encontrar um curso piloto, em fase de lançamento.

Esse tipo de curso geralmente é mais curto e tem um custo menor do que um curso que já tenha sido lançado.

Além disso, quando for escolher que curso fazer, avalie se ele vai te dar um resultado concreto.

Ou seja, quando você terminar o curso, vai ser capaz de produzir alguma coisa na prática, ou só vai ter repetido exercícios com código que você nem sabe por que funciona?

Tente aplicar essa dica mesmo que o assunto seja teórico.

Como assim?

Por exemplo, para aprender Orientação a Objetos, aprenda primeiro a programar em uma linguagem OO simples, como Python.

Dessa forma, você não aprende a construir classes e interfaces só no papel. Você aprende OO construindo programas em Python que compilam e podem ser executados.

Evite também investir muito em uma só opção. Pesquise diferentes plataformas de ensino.

Experimente e descubra o que funciona melhor para você, o ensino online ou presencial.

Caso você opte por aprender online, a maioria das plataformas de ensino tem um período de avaliação sem custo para você vivenciar a experiência do curso antes de decidir.

Se esse for o caso, evite dar “só uma olhadinha” no conteúdo do curso durante o período gratuito.

Concentre seus estudos o máximo que puder nessa etapa.

Dessa forma, você vai encontrar todos os pontos fracos da plataforma antes de decidir se quer pagar pelo curso ou não.

Seguindo essas dicas, você sempre vai ter fôlego para parar e avaliar seu progresso, corrigindo o que for necessário para atingir seu objetivo.

E, acima de tudo, seja sincero com os outros e com você mesmo. Não ostente um título que não reflete sua capacidade real de produzir resultados.

Mas lembre-se:

É importante que você comece a estudar o quanto antes.

Porém, para começar, é fundamental que você tenha um plano.

O seu plano deve conter os passos necessários para que você saia do ponto onde está e chegue ao nível de conhecimento que você quer ter.

“Seja sincero com os outros e com você mesmo. Não ostente um título que não reflete sua capacidade real de produzir resultados.”

Experimente, descubra o que funciona melhor para você e converse sobre sua experiência aqui nos comentários. E não esqueça de dizer como eu posso melhorar esse post!

Guilherme Brügger D Amato - Audiência Pública na Comissão Senado do Futuro

Guilherme Brügger D’Amato é servidor concursado de TI na Câmara dos Deputados, onde ocupou o cargo de Diretor de Informática entre 2015 e 2016. Com mais de 25 anos de experiência como programador e executivo de TI, já desenvolveu sites e sistemas usados por dezenas de milhões de pessoas. Conecte-se com ele no LinkedIn.

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